O passo Dyatlov

Em fins de janeiro de 1959, dez experientes montanhistas da cidade de Sverdlovsk, na Rússia, partiram para uma expedição rumo à cobiçada montanha Otorten, um dos objetivos mais difíceis da selvagem e erma cadeia montanhosa dos Urais. Eram liderados por Igor Dyatlov, experimentado esquiador, cujo nome, por motivos mais macabros que ele gostaria, entraria para a posteridade.

Mais de um mês depois, os corpos destroçados e desfigurados dos membros da expedição, bem como seu acampamento abandonado, foram encontrados por uma equipe de buscas. O que acontecera com o grupo? Impossível, até hoje, elaborar uma teoria que explique todos os inacreditáveis eventos que se sucederam naquele gélido inverno de 1959, na inóspita e quase inexpugnável cadeia dos Montes Urais.

O LOCAL*

A montanha Otorten é, até os dias de hoje, um local ermo, de difícil acesso, quase esquecido pelo homem. Assentada ao norte dos Montes Urais, tem um pico de uma altitude modesta - 1234 metros - mas o caminho até ele é frio e tortuoso, exigindo habilidade, preparo físico e experiência. À época, a trilha até Otorten era considerada pelos montanhistas uma rota de categoria III, a mais difícil conhecida. Hoje, com equipamentos e vestuário apropriado, os níveis de dificuldade são menores, mas atingir o topo da montanha está longe de ser uma tarefa fácil. As temperaturas ali podem chegar facilmente a -30º C, e o local é inóspito o suficiente para manter a maioria das pessoas afastadas durante quase o ano todo.

O único povo que se aventura a viver nos arredores da montanha são os Mansi, uma tribo nativa de origem mongol que se adaptou desde tempos imemoriais às regiões mais geladas e menos habitadas da Ásia. Estima-se que hoje existam menos de 12.000 mansis remanescentes nos Urais. Eles falam um dialeto próprio, tem hábitos e costumes bastante distintos aos dos ocidentais e constituem uma sociedade fechada, avessa ao contato com forasteiros. Adicionalmente, adotam um nome bastante peculiar para se referir à Otorten: Montanha "Não vá lá".

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* Corre uma versão divergente em alguns sites da internet que dão conta de que os objetivos da expedição seriam outros. Conforme pode ser encontrado em várias dessas páginas, os montanhistas percorreriam "100 quilômetros ao sul, pela crista dos Montes Urais, até o topo do Pico Ojkachahl. Desse ponto, pretendiam seguir para norte, ao longo do rio Toshemka, viajando 100 milhas de volta ao povoado de Vishay".

Essa versão, no entanto, é uma teoria de um único site, cujo conteúdo foi fartamente replicado pela internet, em um preguiçoso trabalho de "copiar e colar" já bastante comum na rede. Não afirmo que é uma versão falsa, mas garanto que, nos livros e fontes que consultei (que julgo confiáveis), não encontrei qualquer referência ao "Pico Ojkachahl" (aliás, as únicas referências a esse ponto geográfico são justamente aquelas que replicam a teoria dissidente. Não se encontra esse pico no Google Earth, nem no Google Maps, nem em qualquer outro site de busca de pontos geográficos). Assim, optei por me ater à versão mais tradicional, que faz referência apenas à montanha Otorten. 

A EQUIPE

A equipe que partiu para a expedição era composta por jovens amigos, entre 21 e 25 anos - com exceção de Alexander Zolotarev, de 37 - oriundos do Instituto Politécnico do Ural. Eram oito homens e duas mulheres, todos muito bem preparados fisicamente e já experientes, a despeito da pouca idade, nas atividades de montanhismo. A lista completa dos participantes da expedição incluía:

Igor Dyatlov, 23 anos - líder da equipe, estudante do 5º ano da Faculdade de Radiotécnica do Instituto Politécnico do Ural;

Yuri "Georgyi" Krivonischenko, 24 anos - engenheiro graduado pelo Instituto Politécnico do Ural;

Yuri Doroshenko, 21 anos - estudante da Faculdade de Máquinas de Elevação e Transporte e do Instituto Politécnico do Ural;

Zinaída "Zina" Kolmogórova, 22 anos - estudante do 4º ano da Faculdade de Radiotécnica do Instituto Politécnico do Ural;

Rustem "Rustik" Slobodin, 23 anos - engenheiro graduado pelo Instituto Politécnico do Ural;

Nikolay "Kolya" Thibeaux-Brignoles, 24 anos - graduado pela Faculdade de Construção do Instituto Politécnico do Ural;

Lyudmila "Luda" Dubínina, 21 anos - estudante do 3º ano da Faculdade de Engenharia e Economia do Instituto Politécnico do Ural;

Alexander "Sasha" Zolotarev, 37 anos - veterano da Segunda Guerra Mundial e instrutor chefe para o turismo no acampamento turístico “Koúrovskaya”;

Alexander Kolevátov, 25 anos - estudante do 4º ano da Faculdade de Física e Tecnologia do Instituto Politécnico do Ural;

Yuri Yudin, 21 anos - estudante do 4º ano da Faculdade de Engenharia e Economia do Instituto Politécnico do Ural.

Todos os integrantes da expedição já tinham se dedicado a escaladas em montanhas de variável grau de dificuldade, inclusive no Urais. Estavam acostumados ao frio, ao intenso esforço físico, ao desconforto e à escassez de água e alimento típicos do montanhismo. Eram esportistas - senão profissionais, de elevado grau de preparo físico e psicológico.  

A EXPEDIÇÃO

A equipe de Dyatlov e um grupo de lenhadores que a expedição encontrou no caminho.

Dyatlov e seus amigos partiram de Sverdlovsk em 23 de janeiro de 1959. Carregavam todo o equipamento necessário para uma viagem daquele porte, incluindo instrumentos cedidos pelo próprio Instituto Politécnico do Ural. De Sverdlovsk, tomaram um trem para Serov, onde chegaram às 7 horas da manhã do dia 24. Passaram o dia inteiro em Serov, tomando dali um segundo trem para Ivdel, onde desembarcaram no dia 25. De ônibus, alcançaram a vila de Vizhai, um assentamento inabitado ao norte, último ponto antes da marcha rumo à Otorten. Era o dia 27 de janeiro de 1959. A expedição ia começar.

A equipe de Dyatlov (da esquerda para a direita, Lyudmila “Luda” Dubinina, Alexsander “Sasha” Zolotarov e Zinaida “Zina” Kolmogorova) em uma das vilas abandonadas que a expedição encontrou pelo caminho

Em 28 de janeiro, no dia seguinte, Yuri Yudin sentiu uma súbita dor nas costas - recidiva de uma velha lesão que o acompanhava desde outras expedições - e deu-se conta de que, naquelas condições, jamais conseguiria completar a jornada. Decidiu abandonar o grupo, retornando a Sverdlovsk. Seria o único sobrevivente da expedição.

Despedida de Yuri Yudin, a 28/01/1959. Dyatlov observa o abraço entre ele e Lyudmila ao fundo

A 31 de janeiro, começou a escalada da primeira montanha da trilha. Eles subiram até o cume e depois desceram rumo a um vale, onde coletaram alimentos e provisões. No dia seguinte, dia 1º de fevereiro, continuaram a descer até a base da montanha. Nesse dia, uma nevasca diminuiu drasticamente a visibilidade e fez a temperatura despencar. Com a visibilidade comprometida, o grupo errou o caminho, e acabou se encaminhando para o  local que lhes serviria de sepultura: a montanha Kholat Syakhl. Quando perceberam o desvio de rota, era tarde demais. Optaram por acampar na encosta da Kholat Syakhl. Seria a última noite de suas vidas.

Lyudmila “Luda” Dubinina, Rustem “Rustik” Slobodin, Nikolay “Kolya” Thibault-Brignoles e Zinaida “Zina” Kolmogorova.

O povo Mansi alertara o grupo dos riscos que aquela região representava. Os nativos tinham feito contato com Dyatlov antes da trilha começar, quando a expedição cruzara por várias das acanhadas vilas locais. Relataram-lhe que a montanha não era um lugar seguro. Os Mansi, em sua maioria, tinham medo do local. Kholat Syakhl, a exemplo da Otorten, tinha um pitoresco significado na língua nativa: "a montanha dos mortos".

AS BUSCAS

Doze de fevereiro era a data prevista para que Dyatlov e sua equipe retornassem a Vizhai e fizessem contato por rádio com os familiares. O contato não ocorreu, mas os atrasos em expedições de montanhismo eram comuns à época, de modo que a falta de notícias não causou preocupação em um primeiro momento. Entretanto, os dias foram se acumulando, e o silêncio, se prolongando. A preocupação entre amigos e familiares cresceu, e a polícia foi contatada. Por fim, em 20 de fevereiro, sob pressão dos parentes mais próximos, uma equipe de buscas foi organizada pelo próprio Instituto Politécnico do Ural. Mikhail Sharavin, um professor do Instituto e amigo de Dyatlov, chefiou as primeiras expedições. Logo ficou claro que as operações teriam alto grau de complexidade e que necessitariam de auxílio profissional. Pressionada, a polícia por fim se envolveu, enviando aeronaves e apoio logístico aos participantes da busca. A 25 de fevereiro, um avião militar localizou os restos do acampamento. No dia seguinte, a equipe terrestre de buscas chegou ao local. Foi então que a situação começou realmente a se tornar sinistra.

O acampamento se resumia a uma grande tenda destroçada. Em seu interior, foram encontrados pertences da equipe, mas nenhum cadáver. Mais tarde, a perícia determinaria que a barraca tinha sido rasgada, de dentro para fora, pelos próprios montanhistas, em uma desesperada tentativa de fuga - sabe-se lá de quê. Dentro da tenda, foi encontrada a jaqueta de Dyatlov, no bolso da qual havia uma caixa contendo dinheiro, bilhetes de trem, mapas e documentos pessoais. Também encontrou-se o diário da equipe - a última entrada datava de 31 de janeiro.

Ainda a respeito da barraca, consta no laudo oficial da polícia: "A inspeção da tenda mostrou que foi instalada corretamente e fornecia o devido alojamento para os turistas. Dentro da tenda, estão postos dois cobertores, encontrando-se também as mochilas, jaquetas impermeáveis e calças. Os outros cobertores tinham sido amarrotados e se congelaram. Sobre um dos cobertores, foram encontrados alguns pedaços de pele de bacon. A disposição e a presença de objetos na tenda (quase todo o calçado, todos os agasalhos, objetos pessoais e diários) testemunhavam que a tenda tinha sido deixada de uma forma repentina, por todos os turistas simultaneamente, sendo que, como foi estabelecido posteriormente pela perícia forense, o sotavento da tenda, para onde os turistas tinham colocadas as cabeças, foi cortado a partir do interior em dois lugares, nos trechos que permitem a livre saída de uma pessoa através dessas incisões. Nem na tenda, nem perto dela foram encontrados sinais da luta ou da presença de outras pessoas”.

Ao redor da tenda, era fácil identificar uma grande quantidade de pegadas - atribuídas pela polícia a pelo menos oito pessoas - nos mais variados sentidos, indicando uma fuga não planejada e caótica. O mais chocante era que algumas dessas marcas eram de pés descalços, o que escancarou o desespero e a pressa que tomou conta dos montanhistas no momento. Todos possuíam botas absolutamente adequadas à neve, mas alguns deixaram um ou dos pés de seus calçados para trás. Não só isso: casacos e abrigos mais pesados também tinham sido abandonados na tenda. A poucos metros dali, gorros e chinelos jaziam sobre a neve fofa. Determinou-se mais tarde que os exploradores tinham saído da barraca com roupas leves e inadequadas - alguns com roupas debaixo, outros quase nus - expondo-se voluntariamente a um frio que poderia ter chegado a -20º C ou -30ºC naquela noite. Por quê?

Da miscelânea de pegadas, a equipe de busca distinguiu as marcas de dois pares de pés que se encaminharam a uma floresta a nordeste. Seguindo na direção das pegadas, Shavarin - que ainda fazia parte da expedição - encontrou em meio às arvores os restos de uma fogueira apagada, a meio quilômetro de onde a tenda estava erguida. Ao lado da fogueira, jaziam os corpos congelados e parcialmente recobertos por galhos de árvore caídos de Krivonischenko e Doroshenko. Ambos estavam descalços e trajavam apenas as roupas debaixo. A árvore da qual caíra os galhos que os encobria também foi alvo de exames dos peritos. Ali, bizarra e surpreendentemente, encontraram vestígios de carne e pele humanas. Ao analisarem os corpos com cuidado, notaram que as mãos e os braços de Krivonischenko e Doroshenko estavam em carne viva. Isso levou a perícia a concluir que ambos tentaram, quase nus, escalar a árvore. Na tentativa, suas peles grudaram-se no gelo que recobria o tronco, arracancado tiras de carne das mãos e dos braços quando ambos caíram e a pele se desgrudou.

No rumo de volta ao acampamento, a meio caminho em direção da barraca, o terceiro corpo foi encontrado. Tratava-se do próprio Dyatlov, morto de barriga para cima, com uma mão a segurar um ramo e a outra aparentemente a proteger o rosto. Cento e oitenta metros adiante, mais um cadáver: Rustem, com o rosto voltado para o chão e uma grotesca e extensa fratura cranial de dezessete centímetros. Nada, ao seu redor, indicava o que poderia haver-lhe literalmente rachado a cabeça: não havia pedra, instrumento ou arma contundente.

Cadáver de Dyatlov, na posição em que foi encontrado

Ao lado do corpo de Rustem, um rastro de sangue, seguido por um dos cães farejadores da equipe, levou ao quinto corpo: Zina Kolmogorova. Ela estava enterrada sob meio metro de neve, com sangue sobre a cabeça, mas sem quaisquer ferimentos externos visíveis.

Corpo de Zina Kolmogorova, após ser removido da neve

Os quatro corpos faltantes não foram encontrados pela equipe de buscas. Foi necessário esperar quetro meses pelo degelo, até o início de maio, quando o derretimento da neve revelou os corpos remanescentes: Lyudmila, Zolotarev, Thibeaux-Brignoles e Kolevatov. Estavam no fundo de uma ravina de quatro metros, ao lado de um rio, onde haviam sido conservados pelo gelo. Kolevatov não apresentava feridas externas aparentes; Thibeaux tinha o crânio esmagado, e Zolotarev possuía as costelas quebradas. O cadáver de Lyudmila, de longe, era o mais enigmático: apresentava diversas fraturas nas costelas, afundamento torácico e a boca em uma posição anormalmente aberta. Mais: sua língua, seus olhos e os músculos da bochecha haviam sido removidos. Seu rosto destroçado não é uma imagem bonita de se contemplar.

Outro aspecto interessante dizia respeito às roupas dos quatro últimos cadáveres. Ao contrário dos demais, todos estavam adequadamente trajados frente ao frio, embora as roupas de Luydmila parecessem sugerir que ela se vestira às pressas: uma das pernas estava enrolada em apenas metade das calças. Os outros três, ao que tudo indica, já se encontravam do lado externo da tenda quando o desastre sobreveio.

CONCLUSÕES DA PERÍCIA

As primeiras conclusões diziam respeito ao quadro geral desenhado pelas evidências: algo assustou profundamente os montanhistas, a ponto de fazê-los cortar a barraca de dentro, do lado oposto ao da entrada, e abandonar a segurança da tenda - sem a roupa apropriada para encarar o clima gélido da montanha - em uma fuga desabalada aparentemente sem rumo. Dois pararam sob uma árvore a quinhentos metros do acampamento, acenderam uma fogueira e então fizeram uma infrutífera tentativa de escalar uma árvore. Outros três - incluindo Dyatlov - decidiram em algum momento que seria mais seguro retornar à barraca, e partiram correndo de volta ao acampamento, quando, a meio caminho, foram atingidos por algo ou alguém que os matou.

Quanto à causa mortis, a primeira conclusão da polícia foi de que os montanhistas teriam morrido de hipotermia. Entretanto, uma análise posterior dos cadáveres, durante a autópsia, revelou que nem todos tinham sucumbido ao frio intenso dos Urais: pelo menos três dos alpinistas tinham extensos e fatais ferimentos internos. Suas vísceras e ossos haviam sido esmagados, sob a pressão de uma força externa muitas vezes superior à de um homem: segundo o legista, seriam lesões esperadas em uma colisão de automóveis a alta velocidade, por exemplo. O que teria causado aquele esmagamento nos confins de uma montanha?

Análises laboratoriais posteriores trouxeram novos elementos de mistério ao caso. Algumas das roupas examinadas continham radioatividade causada por partículas do tipo beta, em níveis que indicavam uma contaminação superficial. Também se verificou a ocorrência de queimaduras em diferentes partes dos vários corpos autopsiados. É certo que neve e gelo podem queimar a pele, mas essa constatação não seria capaz de explicar a maioria das queimaduras: o braço e a perna esquerdos de Krivoníschenko, por exemplo, tinham sido sumariamente carbonizados. 

Também é muito difundida a versão de que os cadáveres exibiam cores de tons alaranjados no momento do resgate. Em realidade, apenas os corpos recuperados em maio (Lyudmila, Zolotarev, Thibeaux-Brignoles e Kolevatov) apresentavam essa condição, o que, segundo algumas fontes, poderia se derivar do longo tempo transcorrido entre as mortes dos montanhistas e o resgate. Independetemente da razão, o surgimento de uma coloração alaranjada na pele dos corpos teve a inegável serventia de fustigar ainda mais a imaginação da imprensa e do público em geral.

Algumas evidências importantes derivam dos próprios registros dos montanhistas. Após encontrar o acampamento abandonado, as autoridades recuperaram no interior tenda, entre outros itens, o diário e as máquinas fotográficas usadas pela equipe de Dyatlov. A última entrada no diário ajudou a revelar a noite exata do incidente. Também ajudou a concluir, pelos dados referentes à velocidade de deslocamento do grupo, que a "Montanha dos Mortos" fora alcançada por volta das 16:00 horas do dia 1º de fevereiro. Os exploradores montaram o acampamento, jantaram (havia alimento não digerido no estômago de todos) e trocaram-se de roupa (com exceção de Zolotarev, Thibeaux-Brignoles e Kolevatov, que, aparentemente, tinham se afastado para urinar, o que explica as vestes pesadas que trajavam no instante do ocorrido). Em algum momento entre o fim da tarde e o começo da noite, uma desconhecida força da natureza (nas palavras do próprio inquérito policial) os aniquilou.

As fotos posteriormente reveladas pelas autoridades eram abundantes - mais de cem -, mas pouco esclarecedoras. Elas indicavam, pelas imagens de árvores marcadas com sinais caracteristicamente mansis, que o grupo inequivocamente invadira o território dos nativos. Seria isso motivo suficiente para uma vingança das tribos locais?

TEORIAS

Povo Mansi

A primeira teoria elaborada pela polícia tinha como base exatamente a participação dos Mansi. Diversos membros da tribo local foram levados pelas autoridades para extensos - e, segundo alguns, violentos - interrogatórios. É certo que houve contato entre os Mansi e os montanhistas, mas os habitantes locais sempre afirmaram que não houve confrontos - apenas insistentes conselhos para que não se aproximassem da Otorten, a montanha "não vá lá". Ao fim, a falta de evidências da presença dos Mansi no local na hora do incidente, incluindo ausência de pegadas e de sinais de combate corpo-a-corpo, fez a polícia descartá-los como suspeitos.

Exército soviético

A participação do então exército soviético nos eventos daquela noite até hoje não pôde ser descartado. Durante as buscas, Yuri Yudin, o rapaz que desisitira da expedição e retornara a Sverdlovsk, foi convidado a participar das operações de reconhecimento dos cadáveres e dos pertences dos montanhistas. Ele identificou todos os itens encontrados na tenda abandonada, exceto um - uma polaina militar jogada em meio aos pertences de seus amigos. Yuri garantiu que aquele item não fazia parte da indumentária de qualquer dos montanhistas. Com base nisso, passou a afirmar - e defendeu essa opinião obstinadamente até o fim da vida - que os militares tinham estado na cena do incidente antes da polícia. Arquivos militares soviéticos, apenas recentemente abertos ao público, parecem também sugerir que os militares já estavam a par do ocorrido antes da data oficial em que os primeiros corpos foram encontrados - 26 de fevereiro de 1959. O depoimento de Yuri e as evidências documentais de que o exército soviético se adiantou às buscas podem ser encontrados neste documentário desenvolvido pelo Discovery Channel. Não é um documentário que eu particularmente recomende - ele conduz a questão para uma explicação sobrenatural - mas a produção traz alguns detalhes novos e interessantes sobre o incidente, incluindo depoimentos dos investigadores que primeiro estiveram no Passo Dyatlov.

 A participação dos militares poderia explicar alguns dos aspectos envolvidos no caso. Uma das teorias mais difundidas é que a região da montanha Kholat Syakhl serviria como campo de testes, em função de seu isolamento - a região era evitada inclusive pelos Mansi - para operações envolvendo novas teconolgias bélicas. A explosão de um suposto dispositivo nuclear na região explicaria, por exemplo, a ausência de outras pegadas que não as dos montanhistas, bem como os níveis de radioatividade encontrados nas roupas dos mortos. Uma explosão intensa, com súbito e violento deslocamento de ar, também poderia causar o esmagamento e as lesões internas encontradas nos cadáveres. Teriam os rapazes tido o infortúnio de estar na hora erra e no local errado, testemunhando um teste nuclear destinado a ser secreto? Seja qual for a resposta, o fato é que o exército soviético interditou, durante três anos, o acesso ao local onde ocorreu o incidente, com o alegado propósito de investigar a cena do incidente.

Avalanche

Muitos sites têm replicado a teoria de que a combinação de uma avalanche com a ocorrência de hipotermia explicaria amplamente todos os achados periciais na região do incidente. Mais que isso, apresentam a tese como se houvesse sido oficialmente provada e aceita pelas autoridades, encerrando o caso. Não deixa de ser uma abordagem enviesada e simplista.

A teoria poderia explicar, é certo, o esmagamento dos órgãos internos das vítimas e algumas outras lesões encontradas. A hipotermia poderia explicar o inacreditável feito de se deixar os casacos e botas no interior da barraca - em níveis terminais de hipotermia, o cérebro está tão avariado que comportamentos bizarros assim são comumente observados. No entanto, há uma série de outros achados que passam longe de ser explicados pela teoria. Não havia qualquer sinal da ocorrência de uma avalanche no local quando as autoridades ali chegaram - inclusive pelo fato de a tenda não estar soterrada. Sob muitos aspectos, a teoria é insuficiente. Apenas para não me alongar no tema - acredito não ser necessário - deixo aqui uma única e simples pergunta: como pessoas tão desorientadas e confusas pela hipotermia, a ponto de deixarem seus abrigos e a proteção da barraca para trás, teriam consciência suficiente para pararem sob uma árvore e acenderem uma fogueira, em meio à neve, munidas apenas de seus fósforos (tarefa já difícil o suficiente sem um combustível eficaz)? Se alguém reponder satisfatoriamente essa singela pergunta, passamos aos próximos pontos.

Animais selvagens

Os indícios de ataques de animais se resumem aos olhos enucleados de alguns corpos e à língua e bochechas arrancadas de Lyudmila. Embora, de fato, essas lesões possivelmente se devam a ataques post mortem de animais selvagens, decerto não representam a causa mortis em questão. Nenhum animal da região, sequer os gigantescos ursos-pardos, seriam capazes de causar os intensos esmagamentos observados nos órgãos internos - especialmente sem causar qualquer lesão externa correspondente. Animais selvagens estiveram ali? Possivelmente. Caçaram e abateram os montanhistas? Certamente não.

Teorias sobrenaturais

Como em todos os casos sem explicação fácil, logo se multiplicam as teorias que apelam ao sobrenatural e ao fantástico. A mais popular envolve a aparição de OVNIs, que teriam espalhado a radiação encontrada no local e assassinado os montanhistas. O ataque de um Yeti também surgiu como alternativa bem aceita pelo público em geral, levando, inclusive, à produção um documentário do Discovery Channel que corrobora a teoria. Como já foi explicado em outros posts, no entanto, este blog não se dedica a endossar ou propagar explicações sobrenaturais. Para quem se interessar sobre o tema, sugiro o interessante relato do site Assombrados, baseado exatamente nas descobertas do Discovery Channel.

Múltiplas teorias

Não importa por que ângulo se olhe o caso, é bastante óbvio que uma única teoria é insuficiente para explicar todos os pormenores levantados pela perícia no local do incidente e todas as lesões encontradas nos cadáveres. Conforme já foi comentado, uma avalanche, por exemplo, explicaria uma série de achados de necrópsia dos órgãos internos dos montanhistas - mas deixaria uma quantidade igual, ou maior, de perguntas sem respostas (Por que estavam praticamente sem roupa? Por que cortaram a barraca por dentro? Por que havia radiação em suas roupas?). Mesmo a teoria militar, que parece a mais plausível, não abarca todas as possibilidades - ainda que se considere que os militares eventualmente tenham revirado e "contaminado" intencionalmente o local onde os cadáveres foram descobertos. Senão, como explicar a língua e olhos arrancados? Seriam apenas requintes de crueldade de soldados entediados? Como explicar a morte daqueles que não tiveram ferimentos internos, mas sucumbiram à hipotermia?

Como se vê, uma teoria só não basta. O mais provável é que, naquela noite, tenha havido uma série de eventos imprevisíveis e potencialmente letais, que, por uma funesta e infeliz coincidência, acabou levado os montanhistas à morte. De qualquer modo, a investigação oficial concluiu que os membros da expedição de Dyatlov sucumbiram devido a uma "força desconhecida", e que o inquérito não podia ser levado adiante devido à "ausência de parte culposa". Assim, ainda em maio de 1959 - quando, pasmem!, os cadáveres de Lyudmila, Zolotarev, Thibeaux-Brignoles e Kolevatov recém tinham sido descobertos! - o caso foi arquivado. Os documentos da investigação foram divulgados ao público transcorridos mais de trinta anos da tragédia, na década de 1990. Ainda assim, apenas foram exibidos em fotocópias - e se tornou óbvio, após uma breve análise, que o arquivo liberado pelas autoridades estava incompleto. 

Ao fim, o que quer que tenham experimentado em seus momentos finais aqueles nove montanhistas, tratou-se de uma experiência dolorosa e violenta. Eles tentaram se defender a todo custo - correram, subiram em árvores, aqueceram-se em fogueiras - mas todos os seus intentos falharam. Alguma força muito superior a todos eles os aniquilou. O que haverá de ter sido? Sem conseguir uma resposta, este blog imita o Memorial Dyatlov e homenageia os nove bravos exploradores dos Urais com uma única imagem:

 

 

 

 

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